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23/10/2015
Gordofobia
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GORDOFOBIA

A expressão criada na Internet representa a violência contra quem está fora do padrão de beleza estabelecido na atualidade: estar magro. Nesta perspectiva, o pavor de engordar viria do medo de ser excluído socialmente? Estar diferente levaria as pessoas a passar fome, se encher de remédios de tarja preta ou sem tarja, se matar na academia e passar a vida toda detestando o espelho, odiando a genética e a si mesmas? Para alguns especialistas, a perspectiva do corpo perfeito é sinônimo da felicidade imposta pelo capitalismo, mas é possível fugir desta armadilha.

Por Indiara Ferreira

 Seis séculos separam o Renascimento do mundo contemporâneo. Um abismo entre as formas arredondadas das mulheres tratadas como belas e as anoréxicas tidas como modelos atuais. Curioso é que o padrão está na contramão das estatísticas. Recente pesquisa anual do Ministério da Saúde sobre obesidade mostra que metade da população adulta está acima do peso (52,5%). Entre os jovens, de 18 a 24 anos, 38% estão com excesso de peso. Acima de 45 anos, o número pula para 61%. Os homens, mais obesos:  quase 57% acima do peso. Entre as mulheres são 49%.

É estranho pensar que este país gordo discrimina quem está obeso. São violências explícitas, como a hostilização em redes sociais, com a proteção dos agressores sentados diante das telas dos computadores, e outras mais sutis e naturalizadas. Você já reparou que os filmes infantis têm uma única princesa acima do peso? A Fiona é a ogra que, apesar de ruiva de olhos claros, é considerada feia e indelicada e, para alguns, fofoqueira.

Na série de desenhos Boa Sorte, Charlie!, o filho faz piada com o pai, que está com quilos extras. Esta violência disseminada entre as crianças é, inclusive, um desrespeito à hierarquia das relações, mas ninguém parece se incomodar, ao contrário, soa como engraçado. Líder de audiência no país, a Rede Globo apresenta em horários distintos personagens extremamente caricatos.

O jovem Eziel, de Verdades Secretas, é apresentado como mau-caráter e traidor; a dona Redonda explodiu de tanto comer; Perséfone, personagem de Fabiana Karla, foi discriminada por ser virgem. A atriz agora abusa do bom humor para ser aceita pelo telespectador, nas noites do fim de semana. 
Na vida real, a cantora Preta Gil sempre foi vítima da mídia, por ser gorda. 

 

Sua sobrevivência vem da rebeldia ditada pelo comportamento explosivo e, via de regra, é mal interpretada. Jô Soares investiu na simpatia e criou, inclusive, o “Beijo do Gordo”. Parece que o gordo tem a obrigação de ter o rosto bonito, ser gentil, engraçado e prestativo para ser aceito socialmente. Que sociedade é essa?

O psicólogo social, esquizoanalista e professor da Universidade de Uberaba (Uniube), Gregório Esteban Kazi, explica que é uma sociedade violenta que, lamentavelmente, inventa formas de extermínio. “Quem rejeita uma pessoa que não reproduz a forma hegemônica do reino também vai rejeitar uma pessoa que tem algum tipo de sofrimento físico. Qualquer um. Supõe-se que essa pessoa, o gordo, por exemplo, não está sofrendo. Ele, propositalmente, está destruindo a harmonia maravilhosa da sociedade. Quando sabemos que essa sociedade não está em harmonia? Na realidade, há uma produção de morte, que é outro tipo diferente de harmonia”.

Aos 25 anos, 1,69 e 115 quilos, Evelise Nascimento se apresenta como a Miss Brasil Plus Size do interior de São Paulo. Ela trabalhava em um salão, quando uma amiga decidiu incentivá-la a participar de um concurso de beleza. Inspirada em Tess Holliday —­­ primeira modelo com as medidas dela (1,65 de altura e tamanho 56) a assinar contrato com uma agência grande na história —, Evelise venceu a etapa do concurso A Mais Bela Gordinha do Brasil e nunca mais parou. Hoje, além de ganhar a vida como modelo, ela desenvolve uma série de ações contra um fenômeno denominado Gordofobia e, como forma de lutar contra os preconceitos, procurou a nossa equipe da JM Magazine.

A tarefa de Evelise nasceu de uma sequência de episódios em Brasília (DF). Ela e outras três misses estavam na capital federal para ministrar palestras sobre autoestima a um grupo de mulheres. A atendente do hotel em que as misses se hospedariam disse que elas não caberiam nem nas camas de casal. As misses, então, foram para a frente do Congresso Nacional, no meio da tarde, acompanhadas de fotógrafos e maquiadoras, e tiraram a roupa. Ficaram só de calcinha, faixa e coroa fazendo sinal de silêncio com o dedo indicador por cima dos lábios. O protesto chamou a atenção da mídia nacional.  

“O gesto de silêncio foi para que as pessoas pensem antes de falar. Se o outro está gordo e se sente gordo, por que ficar falando mal? Há muitos que falam que não são gordofóbicos e usam de desculpas ‘ah, não sou preconceituoso, estou preocupado com sua saúde’. A gordofobia, muitas vezes, está mascarada”. 

 

O especialista argentino explica que a expressão Gordofobia se trata da “psicologização” de um fenômeno baseado em processos históricos, políticos e ideológicos. “Se uma pessoa rejeita, humilha ou tem algum tipo de atitude violenta com alguém que não responde a uma métrica de quilos, não é um fóbico. Esta é uma conduta perversa e psicopática, e não uma fobia. É uma atitude que se associa a fenômenos fascistas, autoritários, violentos, de exclusão e de estigmatização”.

Kazi defende que as vítimas da violência e da exclusão tendem a nomear a ação violenta do agressor como se ele estivesse sofrendo. “Para o psicanalista Wilhelm Reich, é como se a expressão gordofóbico fosse uma justificativa para uma conduta violenta. Na verdade, não é um gordofóbico; é um autoritário. Alguém que não honra a vida e a multiplicidade da vida”.

 

A análise de Kazi encontra fundamento no comportamento de um policial que atendeu à ocorrência das misses no Congresso Nacional. “Ele disse coisas terríveis pra gente. Perguntou se não tínhamos vergonha. Foi horrível. Nos sentimos pior do que estávamos”. A lógica também se fez num bar. Quando as belas chegaram, de uma das mesas surgiu a frase: “Olha lá, já entraram as gordas”. 

Evelise explica que muitas mulheres procuram o apoio dela na Internet, dizendo que estão doentes, que nem saem mais de casa. “Hoje em dia, há mulheres que morrem por causa desse tipo de violência. São mulheres que se automutilam por conta do peso. Não conseguem emagrecer e não saem à rua porque as pessoas ficam olhando e por conta de todas as brincadeirinhas. De todas as doenças ligadas ao peso, a pior delas está relacionada ao psicológico, pois ele manda muito mais no nosso corpo do que qualquer outra doença”.

Evelyse sempre foi gordinha. Quando tinha 18 anos, fez regimes mirabolantes: da Lua, do Sol, do ar, da terra, do vento, de tudo, para tentar emagrecer. “Depois de certo tempo, eu pensei: não, eu tenho que me aceitar assim. Sempre sofri pressão por ser gordinha. Meus exames são mais saudáveis do que o de muitas amigas que são modelos convencionais e são magras, mesmo assim, não têm valor”.

O psicólogo Gregório Kazi defende que é preciso pensar na multiplicidade, muitas vezes exterminada, na defesa de um padrão, de um ser único. “Pense na noção de pureza ligada às concepções fascistas e nazistas, que perduram até hoje. Surge a hostilização dos corpos, a mortificação das potências desses corpos, conforme defende Guattari (filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês)”. 

É como se um corpo gordo, fora do padrão, não merecesse ser valorizado. O preconceito é tão intenso que um dos artistas vivos mais famosos da América Latina, Fernando Botero, de 81 anos, declarou recentemente que ninguém acredita quando ele diz que pinta volumes. “Sou atraído pela sensualidade da forma. Se pinto uma mulher, um homem, um cachorro ou um cavalo, eu o faço sempre com a ideia do volume, mas não é que eu tenha uma obsessão pelas mulheres gordas”.

Botero chegou a ser questionado se gostava apenas de mulheres gordas.  “Não, de jeito nenhum. Já tive três mulheres e as três eram magras”, disse, ressaltando que a atual esposa, a artista grega Sophia Vari, mede 1,75 metro e pesa 55 quilos.

 

 

A HISTÓRIA E A BELEZA DO CORPO FEMININO

Pré-História: mulheres com seios fartos e ancas bem definidas. Suas formas mostravam que eram bem alimentadas e capazes de gerar filhos sadios. Para os gregos: o belo era tudo o que equilibrava proporção e simetria. Século 8: quanto mais barriguda, mais bonita. Valia até colocar enchimento sob a roupa para aumentar a região. A igreja exercia poder e o ventre saliente estava relacionado à gravidez imaculada da Virgem Maria.

Século 15: no Renascimento, as gordinhas eram as mais belas. A opulência era sinônimo de saúde, principalmente depois de a Peste Negra ter eliminado quase dois terços da população da Europa, no fim da Idade Média.Século 17: a partir do Barroco, o ideal de beleza feminina foi exigindo formas frágeis. A cintura, o maior objeto de desejo, foi afinando cada vez mais à custa de espartilho e até de cirurgia para remoção da última costela. 

Século 19: o corpo perfeito tinha cintura de 40 centímetros.Anos 20: a emancipação feminina pôs fim aos espartilhos. O belo eram as silhuetas cilíndricas, com cintura, seios e quadris parecidos nas medidas. As mulheres enrolavam faixas sob a roupa para achatar seios e quadris.

Anos 40: a Segunda Guerra Mundial exigiu a força do trabalho feminino e o ideal de beleza se adaptou. Passou a compreender formas mais masculinizadas. Entram em voga os ombros largos.Anos 60: a magreza e os traços de boneca tornam-se as características mais desejadas pelas mulheres. Começa aqui o sonho de ser eternamente jovem. Com o movimento hippie, também passa a ser moda ter um corpo sem curvas e com os seios pequenos.

Anos 80: a simbologia do corpo musculoso surge como sinônimo de saúde. Os homens querem músculos torneados para espantar o fantasma da Aids, que deixava os soropositivos muito magros. Anos 90 e 2000: a determinação é de que todas sejam absolutamente magras. A anorexia cresce entre as adolescentes. As mulheres querem seios grandes, conseguidos com silicone.
 

 

JM Magazine 58

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