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13/04/2016
BULLYING NÃO BRINCADEIRA
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Com os olhos marejados, o homem conta dos insultos que viveu na escola em razão de sua condição social. Pai de família, não esconde o medo de que a história se repita. Ele não quer que seu filho seja xingado, humilhado e hostilizado repetidas vezes pelos colegas da sala de aula. “Me lembro de uma vez que eles me xingaram e eu fiquei nervoso, porque eu era bobo, eu era otário, e joguei uma carteira do segundo andar da escola. De novo, sobrou pra mim. Eu, que era vítima, passei a acusado e fui, de novo, para a diretoria”, conta com a voz trêmula.

Casos como este não são isolados.Um em cada cinco jovens, na faixa dos 13 aos 15 anos, pratica bullying contra colegas no Brasil. O índice é da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Uma violência silenciosa, naturalizada, travestida de brincadeira de mau gosto, mas extremamente devastadora por suas marcas no corpo e na alma. Para a coordenadora do Grupo de Estudos da Violência Escolar (GEVE), Fernanda Telles Márques, a violência da escola esteve invisível por muito tempo.

Em seu artigo “Na escola, entre violências: percepções de uma comunidade escolar sobre violência institucional e assédio moral horizontal”, ela explica que, no Brasil, a violência na escola passou a ser mais questionada após meados da década de 1980, com o fim da ditadura civil-militar. “Desde então, a preocupação com uma escola menos arbitrária e mais aberta em suas propostas e práticas tem ajudado a refletir sobre a criação de dispositivos que contribuam para a proteção das relações que se estabelecem na escola e a partir da mesma”. 

Segundo a pesquisadora, no entendimento dos professores abordados no estudo, toda e qualquer manifestação de violência na escola é decorrente de falta de estrutura familiar. “De ‘berço’, como dizem os entrevistados, de problemas psicológicos ou neurológicos e do convívio com más companhias. A escola, no entender desses docentes, seria apenas o lugar onde a violência eclode, não tendo qualquer relação com sua reprodução”. 
 

 

 

"Uma violência silenciosa, naturalizada,  travestida de brincadeira de mau gosto"

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas, a partir de 9 de fevereiro de 2016, entrará em vigor no Brasil a Lei nº 13.185, que estabelece o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) em todo o Brasil. O programa tem como propostas capacitar docentes e equipes pedagógicas para a implementação das ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema. Outro aspecto é implementar e disseminar campanhas de educação, conscientização e informação e instituir práticas de conduta e orientação de pais, familiares e responsáveis diante da identificação de vítimas e agressores, além de oferecer assistência psicológica, social e jurídica. Significa que será dever do estabelecimento de ensino e também dos clubes e das agremiações recreativas assegurar medidas de “conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e à intimidação sistemática (bullying)”. 

 

Brincadeira x bullying

 

 

A psicoterapeuta individual e em grupo de crianças, adolescentes e adultos Amanda Miareli considera necessário diferenciarmos o bullying de discussões pontuais, dissabores e conflitos interpessoais inerentes às relações humanas que ocorrem frequentemente no dia a dia das pessoas. “Para que seja considerado bullying é necessário que a agressão aconteça entre pares, ou seja, entre crianças, adolescentes ou adultos, colegas de classe ou de trabalho, na qual a agressão deve ser intencional para ferir o outro, acontecer repetidamente, ter um público expectador e ser agressão física ou verbal que inclui violência psicológica, como intimidações, humilhações, exclusões, opressões, ameaças entre outras”, salienta Amanda.

Questionada sobre a origem das agressões, a psicoterapeuta Amanda salienta que há diversas motivações, que devem ser apuradas de acordo com o caso. “É comum que abordem aspectos étnicos, sociais, culturais, religiosos ou relacionados ao sexo”. Pesam ainda a dificuldade de relacionamento com outras crianças, a experimentação da sensação de poder, os abusos e humilhações sofridos pelos pais ou outros adultos encarregados da educação e até a intensa pressão para que tenham sucesso em suas atividades. “É uma criança ou adolescente com dificuldades de relacionamento interpessoal e baixa autoestima, o que pode envolver uma acentuada necessidade de autoafirmação”, reforça a antropóloga Fernanda. vítima do bullying
 
A vítima do bullying, segundo Amanda, não apresenta características específicas e o mais preocupante é que, na maioria das vezes, não pede ajuda, o que dá força para o agressor manter as provocações. “É comum que as vítimas cheguem a concordar com as agressões, o que abala ainda mais a autoestima do indivíduo e dificulta a sua autodefesa”.

É frequente que a vítima se isole e até desenvolva doenças psicossomáticas ou traços da personalidade influenciados por essas situações, carregando as marcas das vivências negativas para o resto da vida. “Em casos extremos, vemos o bullying atingindo o estado emocional do sujeito de uma maneira tão intensa que podem ocorrer homicídio ou suicídio”, pondera a psicoterapeuta. Existe ainda outra armadilha: a vítima pode alternar momentos de ansiedade e de agressividade. “Algumas vezes, para mostrar que não são covardes, os próprios alvos terminam encontrando alguém ainda mais indefeso para ser a sua vítima de atos depreciativos, sendo assim vítima e agressor”.

Em seus estudos que relacionam agressividade, violências e escola, Fernanda salienta que um dos problemas é a invisibilidade da violência escolar aos olhos dos adultos. “Essa dificuldade de reconhecer que a violência está presente pode ser vista quando os próprios docentes encaram as vítimas de bullying como sendo aquelas crianças já previamente estigmatizadas por algum problema. Então, eles não percebem que suas próprias atitudes e/ou sua omissão alimentam mais ainda a violência já em processo”.
 

 

Cyberbullying

A nova lei sancionada pela presidenta Dilma Rousseff considera também o Cyberbullying, ou seja, a “intimidação sistemática na rede mundial de computadores, quando se usarem os instrumentos que lhe são próprios para depreciar, incitar a violência, adulterar fotos e dados pessoais com o intuito de criar meios de constrangimento psicossocial”. Com os filhos conectados praticamente as 24 horas do dia, a sugestão dos especialistas é falar abertamente sobre o assunto para aumentar a conscientização.

Graduado em Design de Interface Digital e mestrando em Design da Comunicação na Politecnicodi Milano (Itália), Marcus Pessoa tem em seu site um post sobre “6 Casos de Cyberbullying que tiveram finais trágicos”. Entre as evidências do mundo inteiro está a da jovem do Piauí, Júlia Rebeca. “Pela Internet ela anunciou o dia da própria morte, depois que um vídeo íntimo entre ela, um rapaz e outra adolescente, filmado pela própria jovem, vazou para as redes sociais através do WhatsApp”. Segundo Marcus, Júlia foi encontrada morta dentro do quarto, enrolada no fio da própria chapinha. 

“A data foi postada em uma mensagem através do Instagram e do Twitter da jovem, que dizia: ‘Eu te amo, desculpa eu n ser a filha perfeita mas eu tentei… desculpa eu te amo muito mãezinha (…) Guarda esse dia 10.11.13 [sic]’”. Para a psicoterapeuta Amanda, a sanção da lei de Combate ao Bullying pode sim ser uma forma de olharmos com mais atenção para essas situações que acontecem mais frequentemente do que são relatadas. “Fica claro que o que precisamos para que o bullying ou ciberbullying sejam evitados de fato é um cuidado da população na maneira de olhar e julgar o outro, aprendendo a se colocar em seu lugar, ter compaixão, tolerância e evitar o sofrimento alheio”, finaliza.

 

JM Magazine 58

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