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11/07/2013
Um príncipe além da monarquia
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Por: Jorge Alberto Nabut

No burburinho da feijoada mais famosa e concorrida do País, aquela que, anualmente, é realizada em Uberaba por Paula e Jonas Barcellos na colunável fazenda Mata Velha, as personalidades do mundo empresarial e político fazem e acontecem no ambiente incrementado pela música de Gaby Amarantos, a Beyoncé do Pará, que se celebrizou cantando “Ex My Love”, na novela “Cheia de Charme”.

Os olhares, focos e flashes se voltam para quem estará nas páginas do Estadão, da Folha, nas telas da Globo, da Band...
Fora do foco da mídia, um homem simpático, discreto, meio alourado, meio ruivo, é o alvo do colunista em seu dia de repórter. A aproximação é feita de maneira direta. Peço a Alexandre Biagi, que está na mesa da personalidade, que me apresente o alvo de minha entrevista.

Não se trata de nenhum grande criador de gado zebu, que coloca no leilão animais de mais de um milhão de reais, nem de políticos alçados ou alçando aos cargos mais importantes.
Trata-se de D. João de Orleans e Bragança, o terceiro na linha da sucessão ao trono brasileiro. Um homem que também é notícia, mas por seu conceito de cidadania, por sua maneira de encarar o Brasil, o mundo, a família, o cidadão.
De chofre, digo a ele que seu tataravô, o conde D’Eu, esteve em Uberaba. Ele se assusta. Eu lhe digo que o fato se deu em 20 de março de 1889, e que o marido da Princesa Isabel foi recebido e celebrado na igreja da Matriz. O Príncipe do Brasil, como é chamado, sorri e confirma ser possível a vinda do antepassado, aqui, por causa da campanha que o conde fazia por todo o país.
Aos 58 anos, o Príncipe D. João é casado com Cláudia Melli. Ele tem dois filhos, um dos quais, Maria Cristina, é, atualmente, a única princesa do mundo portadora da Síndrome de Down.
Fora do recinto onde a feijoada é realizada, onde se permite abaixar o volume do som das conversas e da música, o trineto de D. Pedro II revela sua visão do mundo, concedendo a seguinte entrevista.

JM Magazine - Como é este lance de um homem com espírito democrático se situar dentro de um clã monarquista?
João de Orleans e Bragança - Tem algo mais democrático do que a Suécia, a Dinamarca, e, hoje, o Japão, a Espanha? Aquelas monarquias são berço da social democracia. Lá, a monarquia e a república são dois sistemas que se entrelaçam. Repúblicas altamente corruptas e ditatoriais como a Venezuela, a Síria, o Egito, não têm a liberdade das monarquias atuais.

 
JMM - Mas como fica um Príncipe no clã monarquista, lidando com parentes conservadores, como Dom Bertrand (Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança ultra conservador)?
JOB - É a mesma diferença das democracias e das não democracias. D. Bertrand tem ideias bastante diferentes das minhas em matéria de liberdade, de inclusão social, a respeito da inclusão das minorias, da homossexualidade, do casamento entre homossexuais, do qual sou a favor. A gente precisa acompanhar o mundo. Então, eu tenho posições diferentes das dele; outras ideias.
 
JMM - O senhor tem uma filha com Síndrome da Down...
JOB - Justamente! As pessoas discriminadas devem ser ajudadas por toda a sociedade e nela serem incluídas. Daí a necessidade, mais ainda, da inclusão social. Com minha filha aprendi mais sobre inclusão social das minorias. Com ela tive um aprendizado de vida, com um enriquecimento enorme.
 
JMM -  Seu tetravô, D. Pedro I, foi um apaixonado pela fotografia. Agora, o senhor é fotógrafo de reconhecimento internacional. Dá para fazer, aí, um link cultural entre vocês dois?
JOB - A maior identificação entre Pedro II e eu, trineto dele, é o gosto pela liberdade. D. Pedro tinha obsessão pela liberdade, inclusive da imprensa; liberdade de expressão, coisa raríssima na América Latina daquela época. Para mim, a liberdade é a base de uma sociedade, a base do crescimento do ser humano. O respeito pelas opiniões contrárias, o respeito pelas minorias, mesmo quando você é maioria. Então, esse é o link maior que existe entre Pedro II e eu.
 
JMM - E a fotografia propriamente dita?
JOB - D. Pedro II tinha admiração pela fotografia, muito pela vontade de não deixar o Brasil fora do desenvolvimento tecnológico, dos avanços das ciências. Ele não queria que o Brasil ficasse atrás disso. A fotografia foi um avanço que, na época, talvez tivesse a mesma importância que tem a internet hoje em dia. Você retratava um fato, uma paisagem, uma pessoa justamente como eles eram. A fotografia foi uma mudança radical na comunicação humana.

JMM - E para o senhor? Qual é a importância da fotografia em sua vida?
JOB - Para mim, a fotografia veio devido à minha paixão pelo Brasil, pela cultura brasileira, minha admiração pela identidade brasileira. Comecei a fotografar o Brasil inteiro, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, passando por tribos indígenas, comunidades de caiçaras e de pescadores. Viajei pelo Brasil inteiro, sempre fotografando, catando nossa riqueza, nossa identidade cultural.
 
JMM - Como o senhor se sente vendo uma foto sua, lá do sertão, do fim do mundo, numa galeria de arte?
JOB - Quando a gente faz o que gosta, tenta melhorar, mudar, avançar. Ver uma obra numa galeria ou exposta para todos verem é sempre um prazer para quem faz.
 
JMM - Qual é a região fotografada que lhe deixou as melhores lembranças?
JOB - O Brasil inteiro. Minha ligação com o Brasil, que é de família, é de um respeito muito grande, um respeito muito profundo. A cada dia eu vejo coisas novas em qualquer região para serem fotografadas.
 
JMM - O senhor diz ter um respeito muito grande pelo Brasil. E esse Brasil, tem sido respeitado?
JOB - Não. Porque pessoas que se dizem patriotas, trabalhando para o povo, se aproveitam dos cargos públicos para terem benefícios, empregam parentes, os parentes roubam. E nunca se roubou de uma forma tão descarada! Sempre se roubou. É do ser humano. A condição existe desde que o mundo é mundo. Mas muita gente acha que trabalhar para o país, para o povo, dá direito a roubar. Não! Quem está no cargo público tem obrigação de trabalhar por ideal, pelo país.
 
JMM - O senhor acaba de receber da ABCZ uma placa alusiva ao fato de Dom Pedro I, ter sido o primeiro importador de zebu para o Brasil. Como vê essa atitude do imperador?
JOB - Dom Pedro I já pensava num plantel de gado zebu, animal que se adapta com facilidade ao nosso clima, muito mais que o bos taurus. Hoje, o Brasil é o maior exportador de gado do mundo.
 
O Príncipe do Brasil se retira e volta ao grande recinto do salão por onde circulam celebridades como a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Aécio Neves e tantos mais. Ele retorna a seu lugar, vai se sentar onde estava no início de nossa conversa, como um cidadão comum, afeito à sua dignidade e à sua inabalável consciência de cidadão do mundo, mas com olhos, ciência e coração voltados diretamente para o Brasil. É provável que a maioria dos presentes não saiba da presença de Dom Joãozinho, como é comumente chamado, no recinto, e nem do papel que ele representa na sociedade brasileira. Mas, no dia seguinte à feijoada, na página social do Jornal da Manhã, o Príncipe do Brasil foi o centro de todas as atenções do colunista e dos leitores a quem os melhores conceitos de democracia e liberdade chegavam através de um notável cidadão de “sangue azul”.
 

JM Magazine 58

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